Existe um volume de escritos de arquitetos no início do século XX e podemos olhar através deles as linguagens formais do Modernismo. Infelizmente, o material útil acaba por ser muito pouco, a maior parte dela descreve não uma linguagem de forma, mas sim de marketing e declarações de natureza política. Além disso, essas peças de linguagens formais muito pessoais são apresentadas como teorias normativas: a prescrição do que fazer e o que não fazer, com o peso da ética universal, mesmo que sejam baseadas exclusivamente em opiniões e não em observações empíricas ou estudos sistemáticos.

Aqui estão algumas listas práticas de regras que encontrei de Naum Gabo e Antoine Pevsner, Ludwig Mies van der Rohe, e Le Corbusier.

  • Dos irmãos Naum Gabo e Antoine Pevsner, 1920: “Rejeite volumes e massas fechadas e modele o espaço a partir do interior para fora. Rejeite cor, e utilize apenas a cor natural dos materiais de construção. Rejeite todos os ornamentos.”
  • Ludwig Mies van der Rohe, 1923: “Plantas abertas nos interiores. Materiais estão limitados ao concreto, ferro e vidro. Utilize apenas panos de vidro e concreto armado — não utilize construções autoportantes.”
  • Le Corbusier, 1927: “Eleve o edifício colocando seu subsolo na superfície da terra, suspendendo o restante em pilares (pilotis). Apenas construções com panos de vidro são permitidas. Telhados têm que ser planos. Janelas podem ser horizontais apenas e se estenderão de um pilar a outro, o que as torna bem amplas (estreitas e longas).”

Essas três regras para uma linguagem das formas modernistas contrastam com as linguagens das formas tradicionais, então é evidente que o produto pareça bastante diferente de um edifício tradicional erguido antes do século XX. Essa nova abordagem era parte do apelo da linguagem modernista quando esta foi inicialmente introduzida.

Sem discutir os méritos das formas modernistas e suas variantes aqui, existe um apelo à universalidade, e portanto, uma rejeição à adaptação regional. Também existe uma forte motivação em rejeitar elementos simplesmente porque eles pertencem a linguagens de formas tradicionais: se voltando contra as tradições culturais pelo bem da inovação.

Nossa sociedade adotou a linguagem formal modernista para um grande número de edifícios e portanto nós esquecemos das linguagens formais antigas e tradicionais. Isso representa uma grande perda para a base de conhecimento da profissão de arquitetura. Nenhuma sociedade racional deveria descartar informação prática, a não ser que o corpo de conhecimento tenha se provado errado, ou desnecessário.

Nada de errado jamais foi descoberto em linguagens formais antigas: na verdade, elas possuem um grande número de qualidades adaptativas e criam ambientes agradáveis, funcionais e confortáveis. Nós sugerimos que um arquiteto possa aprender com essas linguagens. Algumas delas serão mais relevantes para cada local que outras — um retorno bem vindo à valorização dos regionalismos, porque isso leva à sustentabilidade.

Quando decide empregar uma linguagem formal antiga para projetar um edifício hoje em dia, o arquiteto tem uma opção. Ele pode usar a linguagem de formas em sua concepção original. Do contrário, o arquiteto pode optar por atualizá-la, introduzindo melhorias ou adaptações ao utilizar materiais contemporâneos. Arquitetos também têm a opção em acrescentar elementos inovadores individuais de seu próprio imaginário, a não ser que sejam contratados para projetar numa linguagem formal particular.

Uma linguagem de formas evolui com o tempo, assim com as linguagens oral e escrita, então mudanças fazem parte do processo natural. O que não é natural é a drástica reversão na linguagem formal. A preocupação crucial aqui é modificar uma linguagem formal arquitetônica sem que ela perca seu poder adaptativo e expressivo. Para que isso seja possível, o arquiteto deve começar com um grande respeito em relação ao que a linguagem formal tradicional evoluída representa.

Uma análise de uma linguagem formal particular te prepara para utilizá-la como uma ferramenta de projeto através do entendimento de como um projeto nasce de estruturas “linguísticas” combinatórias. Se o estudante documenta corretamente uma linguagem formal, então ela pode ser utilizada para projetar um edifício completamente novo. A medida de sucesso é se um observador acredita que um projeto novo se parece a um edifício original o bastante para ser considerado um desdobramento da mesma linguagem. Quero acabar com a prática comum dos estudantes de copiar os edifícios como imagens diretas, o que não é inteligente nem criativo. A maneira correta de projetar numa linguagem particular de sua escolha é primeiramente extrair e documentar aquela linguagem formal a partir de um ou mais exemplos, e então utilizar esta linguagem para projetar um edifício novo.

Documentando uma Linguagem Formal Aprofundar-se no processo de documentação de uma linguagem formal é uma experiência educacional. Primeiro, ele revela a complexidade dessa linguagem: quantas palavras (e diagramas) são necessárias para a descrevê-la e para que possa ser aplicada no projeto de algo. Existe uma medida muito simples de complexidade que nós podemos empregar aqui. A medida de complexidade de Kolmogorov-Chaitin é a medida mínima de um sistema de descrição. É o “comprimento de código” sem redundâncias. Para uma linguagem formal, ela será a contagem de palavras de seu “checklist de linguagem formal” [verificar template no final do livro, na lista abaixo].

Essa primeira medida de complexidade de uma linguagem formal abre novas dimensões para compreender arquitetura. Satisfazer as necessidades do usuário, adaptações ao clima, região e materiais deve tornar a linguagem formal mais complicada — com uma contagem de palavras mais longa. Na verdade ambos os sistemas aleatórios e os altamente ordenados são complexos, mas cada um à sua maneira. Estudaremos esta distinção mais tarde. Agora notamos que a complexidade da linguagem formal não necessariamente implica adaptação, e vamos procurar uma correlação entre a complexidade de Kolmogorov-Chaitin e a adaptação regional.

O modelo também nos permite comparar linguagens formais muito diferentes em termos de sua complexidade. Diferentes linguagens não podem ser comparadas visualmente, graças às imagens muito diferentes que elas possuem, mas sim em termos de complexidade geral de cada linguagem.

Regionalismos tradicionais envolvem adaptação aos materiais, clima, cultura e suas práticas sociais locais. (Discutiremos futuramente as possibilidades da combinação de regionalismo com o modernismo do século XX). Utilizando o modelo de medida de complexidade de uma linguagem formal através de uma contagem de palavras de suas descrição verbal, podemos investigar como a adaptação às práticas locais e a cultura de construção necessita uma descrição mais longa ou mais curta do processo de projeto. Nossa experiência intuitiva nos levaria a dizer que uma melhor adaptação às necessidades locais requer descrições mais longas.

Uma linguagem formal é uma prescrição para criar uma ordem estrutural, e seus produtos terão sua própria aparência característica. No centro de cada linguagem falada ou escrita está uma série de regras comuns à todas as linguagens. Podemos buscar essas regras gerais em outras ciências para entender os pontos comuns entre esses distintos estilos arquitetônicos.

Introduzi algumas regras de ordem estrutural para ajudar a explicar a teoria de Alexander sobre design adaptativo, que estudaremos depois. Essas regras foram extraídas da física, não da arquitetura, e estabelecem um esboço de auxílio para analisar linguagens formais. Elas representam os meios de se alcançar coerência das formas.

Três leis para a arquitetura são propostas:

(1) Ordem de menor escala consiste em elementos contrastantes emparelhados.

(2) Ordem de grande escala ocorre quando todos os elementos colaboram para reduzir a aleatoriedade.

(3) A pequena está conectada com a grande através da hierarquia das escalas intermediárias, utilizando uma razão de escala em torno de e ≈ 2,7.

Vejamos as consequências destas leis para a criação de ordem coerente. A menor escala necessitará ter componentes bem definidos para que eles possam verdadeiramente se emparelhar. Ela não pode estar vazia por completo. O acoplamento é alcançado por meio de bloqueio geométrico e contraste. Segue-se então que sempre que houver repetição, é um par acoplado que se repete.

A aleatoriedade é reduzida pelo uso de simetrias de todos os tipos: repetição, alinhamento ou simetria de translação, simetrias reflexionais e rotacionais e deslizantes (que são uma translação mais uma reflexão). A intenção é ser capaz de experienciar a estrutura como um todo, ao invés de ter que explicar cada componente individual separadamente. Componentes na mesma escala estão relacionados com simetrias comuns, enquanto aqueles de diferentes escalas estão relacionados através de simetrias escalonadas.

Essas regras, originalmente dado o contexto de uma teoria específica do design, se provam úteis ao descrever as linguagens formais. Por exemplo, olhe para componentes (em pares) de repetições e de contrastes nas pequenas escalas. Preste atenção no que está acontecendo nas várias escalas diferentes. Procure simetrias, ou a falta delas onde elas poderiam ser normalmente esperadas.

Também somos sensibilizados por esta estrutura para reconhecer quadros e limites em linguagem formal. No projeto e na construção tradicional, dois elementos estruturais raramente se juntam sem alguma forma de guarnição, a região intermediária, ou limite. Isto foi eliminado na linguagem formal minimalista que estamos mais familiarizados, por isso não devemos ignorar as fronteiras — que aparecem em todas as linguagens formais tradicionais — agora.

Linguagens formais não adaptativas poderiam na verdade ser geradas por regras bastante simples. Por exemplo, “gerar uma forma escultural com um programa de computador e então construí-lo como um edifício”, ou “amassar um pedaço de papel, em seguida, construí-lo como um edifício” , ou “desenhar um rabisco em um pedaço de papel, em seguida, construí-lo como um edifício” . Essas são descrições em apenas algumas palavras. Ainda sim, elas se baseiam em alguma linguagem formal industrial, como grandes galpões ou hangares de aeronaves — o modelo escultural não é suficiente para produzir desenhos de trabalho para construtoras. Regras básicas como essas trabalham em conjunto com uma linguagem formal desenvolvida. O resultado é uma construção que tem uma descrição muito complexa.

Outra regra básica que pode gerar uma linguagem formal complexa age revertendo ou negando uma linguagem formal existente. Mais uma vez, isso requer uma linguagem desenvolvida para agir. Podemos imaginar prescrições como: “reverter as hierarquias naturais de escala”, ou “eliminar as linhas retas”, ou ainda “comprimir formas ao ponto imediatamente anterior a elas se tornarem inabitáveis”. Essas regras simples mudam uma linguagem formal radicalmente, e criam edifícios complexos com um apelo de novidade. Caso contrário, um arquiteto pode simplificar drasticamente uma linguagem formal existente com a regra “tira tudo, exceto estrutura de apoio”, o que reduz a sua complexidade.

Arquitetos não possuem o hábito de escrever sobre suas linguagens formais. Ou sentem que possuem um projeto secreto próprio que não querem que seja copiado pelos outros, ou simplesmente não estão acostumados a documentar seus projetos dessa maneira. Poderia ser o caso também de estarem gerando sua linguagem formal por um “atalho”, como um dos casos descritos acima. Outros arquitetos e pesquisadores normalmente estudam o edifício depois, e essas são as pessoas que mergulham na linguagem formal. Mas mesmo estes não costumam documentar a linguagem formal.

Medindo a complexidade através de uma lista de linguagem formal

Preencha os detalhes de sua linguagem formal da maneira mais sucinta possível na lista abaixo. Os itens incluem uma lista de materiais, formas, tamanhos, etc. Para alguns dos itens, um simples sim ou não indica se alguma coisa (um elemento estrutural, uma propriedade daquele elemento) está presente ou não. Será necessário estimar ambos os tamanhos verdadeiros dos componentes, e relativizar as razões de tamanhos entre os componentes diferentes. Ao enumerar as ligações, um elemento incomum de interesse (pelo menos para o pensamento de projeto de hoje) é procurar e documentar uma peça intermediária que conecta dois outros componentes. Em muitos edifícios contemporâneos, esta conexão intermediária está faltando por razões estilísticas, então para realizar esse exercício, você tem que mudar o modo de ver as estruturas.

Complete então a complexidade Kolmogorov-Chaitin de sua linguagem formal utilizando a contagem de palavras de sua lista completa. Quanto mais palavras houver, mais complexa será sua linguagem formal. Também estime aproximadamente a adaptação regional de sua linguagem na escala de 0 a 10 (números mais altos indicam adaptações melhores). Esta é a estimativa mais simples possível da adaptabilidade regional do seu prédio, o que representa o oposto de qualquer método de projeto abstrato, formal, ou “universal”. Um edifício de “estilo internacional” terá necessariamente uma classificação muito baixa. Por último, procure qualquer correlação.

O que é notável é que somos capazes de medir a complexidade de uma linguagem formal em tudo, e por meios simples, como a contagem de palavras por um processador de texto. Temos agora o início de uma nova pesquisa de complexidade na arquitetura. Iremos mais longe e correlacionaremos essa complexidade com adaptabilidade e regionalismo muito melhor, em nosso segundo modelo apresentado mais adiante.

Lista da Linguagem Formal

NOME DA LINGUAGEM FORMAL: Localização, nome do arquiteto, edifício particular?

DOCUMENTAÇÃO: existe uma descrição escrita ou um conjunto de regras de trabalho para esta linguagem formal? (Instruções, não uma justificação filosófica ou ideológica).

MATERIAIS: titânio, aço, vidro, alvenaria, concreto, madeira, pedra, adobe, etc.

COMPONENTES: paredes, pisos, coberturas, estruturas, janelas, portas e suas dimensões.

CONEXÕES: cornijas, beirais, juntas, rodapés, pontos de encontro de parede + parede, parede + piso, parede + janela, porta + parede, parede + teto, fachada + telhado, tamanho da conexão em relação ao que se junta.

BEIRAIS E BALANÇOS: tipo de apoio, situados no topo ou na base?

ARCOS: sim/não, tipo, espaçamento, altura, dimensões.

COLUNAS: sim/não, tamanho, altura, alinhamento, espaçamento entre elas, etc?

CONEXÕES DAS COLUNAS: coluna + piso = base, coluna + teto = capitel, tamanho relativo.

GEOMETRIA: retangular, diagonal ou curva.

FORMA CARACTERÍSTICA: geometria geral dos componentes, seu alinhamento relativo e sua variedade.

SUBDIVISÃO DE FORMAS: sim/não, para paredes, janelas, suas dimensões relativas.

GRAMÁTICA E SINTAXE: quais componentes se relacionam entre si (simetria) ou não deveriam relacionar (assimetria). Há regras ocultas?

ENTRADA: tamanho relativo, métodos de definição, mudança de nível?

ALPENDRES E VARANDAS: sim/não, profundidade, as conexões do telhado, grade dianteira ou sólido?

PLANTA BAIXA: subdivisão do espaço, ordem e hierarquia de ambientes, circulação.

EXISTÊNCIA DE ESCALAS: bem definidas e geralmente repetindo estrutura em 1 mm, 3 mm, 1 cm, 3 cm, 10 cm, 1 m ou 3 m, 10 m, e outras escalas.

COR: sim/não, quais? intensidade? as cores diferentes se harmonizam?

SIMETRIAS MAIORES: simetrias formais na escala de 10 m até cerca de 1 m.

SIMETRIAS MENORES: sub-simetrias de 1 m aos detalhes.

ELEMENTOS DECORATIVOS: grandes elementos não funcionais utilizados apenas por estilo.

ORNAMENTOS: sim/não, tipo e formato, escalas e aonde aparecem, extensão. SUPERFÍCIES: materiais e texturas apresentadas ao usuário, “agradáveis” ou não?

Regionalismo Arquitetônico se correlaciona com a complexidade do projeto

Após documentar uma linguagem formal particular, nós medimos sua ‘complexidade’ utilizando a contagem de palavras da descrição de acordo com a Lista de Linguagem Formal acima.

Simultaneamente, estimamos a adaptação regional na escala de 0 a 10, sendo o menos adaptado ao local, cultura de construção, e necessidades específicas do usuário aliadas à cultura local. Somos guiados nessa estimativa através do que o regionalismo significa no contexto de utilizar materiais locais, utilizando tipologias tradicionais, métodos utilização de energia de baixo custo, otimização, continuidade histórica das tipologias de projeto e o uso do ornamento tradicional, etc.

Cada linguagem formal apresenta um par ordenado de números (contagem de palavras, adaptação regional) e todos esses podem ser comparados. É mais instrutivo definir Adaptação Regional (num eixo vertical) versus Complexidade de uma Linguagem Formal medida pela contagem de palavras de sua descrição verbal (no eixo horizontal).

Essa definição indica que a adaptação regional se correlaciona com a complexidade de uma linguagem formal. Este resultado é ainda mais surpreendente porque uma medida de complexidade de linguagem formal obviamente depende da contagem de palavras, e também do detalhamento da pessoa que o descreve! Apesar das imprecisões evidentes do método, estes resultados abrem um tema muito promissor para uma pesquisa mais detalhada.

Durante as discussões da avaliação de cada edifício no contexto de todos os resultados, vários estudantes disseram que a sua escolha de edifício para este estúdio “acabou por não ser um bom exemplo, afinal”. Pressionados para explicar isso, eles afirmaram que foram originalmente atraídos para seus edifícios por causa dos critérios usuais de projeto de arquitetura, mas nossa análise mostrou-lhes que as qualidades mais importantes que facilitam o uso humano e simples economia estavam faltando. Como resultado, eles entenderam como julgar se uma linguagem formal era adaptável ou não.